O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), nesta 5ª feira (2.jul.2026), uma manifestação de 86 páginas propondo que o governo norte-americano não implemente imediatamente as tarifas de 25% previstas contra produtos brasileiros. Em vez disso, sugeriu que abram um período de negociação entre os 2 países antes de qualquer medida entrar em vigor. Leia a íntegra do documento (PDF – 2 MB).
Nas páginas 17 e 18 do documento, em vez de pedir o cancelamento das tarifas, o senador propõe um mecanismo de snapback (retorno automático, na tradução), que funcionaria como uma espécie de última tentativa de acordo. Pelo modelo sugerido, as medidas ficariam suspensas por 180 dias enquanto Brasil e Estados Unidos buscariam uma solução negociada. O prazo poderia ser estendido por mais 90 dias caso as negociações apresentassem avanços concretos e fossem conduzidas de boa-fé. Sem progresso, as tarifas voltariam automaticamente a ser aplicadas.
Íntegra em inglês do pedido de Flávio aos EUA para a pausa de 180 dias antes de novas tarifas
Leia a íntegra traduzida do pedido de Flávio:
“Juntamente com a suspensão das ações propostas, o autor desta manifestação propõe um mecanismo de restabelecimento automático (“snapback”) de 180 dias, prorrogável por mais 90 dias caso as negociações demonstrem boa-fé e progresso concreto.
O governo atual teria esse período para participar de negociações conduzidas de boa-fé, sem a perspectiva de obter dividendos eleitorais ou enfrentar as consequências do restabelecimento dessas ações. Esse mesmo período daria à oposição no Congresso tempo e legitimidade para pressionar o governo atual a intensificar seus próprios esforços de negociação de boa-fé. Em caso de vitória da oposição, o presidente eleito nomearia imediatamente um negociador para dar prosseguimento às negociações de boa-fé. Essa disposição elimina a volatilidade do fator eleitoral, oferece ao governo atual uma oportunidade de agir de forma responsável e preserva a possibilidade de que os Estados Unidos finalmente passem a negociar com interlocutores de boa-fé interessados em restaurar a relação comercial mutuamente benéfica que historicamente marcou as relações entre os 2 países.
O período de 180 dias acima descrito também se baseia na própria autoridade de implementação do Representante Comercial. A legislação permite que a implementação de uma determinada ação seja adiada por até 180 dias quando o adiamento estiver em consonância com o interesse econômico nacional e quando negociações substanciais estiverem em andamento –ou, como neste caso, em perspectiva imediata por meio do próprio mecanismo que esta manifestação solicita ao Representante Comercial que estabeleça– e ofereçam perspectivas de uma resolução satisfatória. Ambas as condições estão presentes.
De todo modo, o prazo de 30 dias para implementação começa a correr apenas a partir de uma decisão afirmativa de agir; uma decisão de suspender a implementação não dá início a essa contagem, de modo que o adiamento mantém a questão estritamente dentro do cronograma previsto pela legislação.”
INVESTIGAÇÃO NORTE-AMERICANA
A proposta foi apresentada durante a investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada para apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos. Entre os pontos citados pelos norte-americanos ao Brasil estão comércio digital, Pix, tarifas, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
No documento, Flávio afirma que medidas tarifárias anteriores não alteraram o comportamento das autoridades brasileiras e acabaram fortalecendo politicamente o governo Lula.
“Pesquisas de opinião pública brasileiras mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos EUA foi mais evidente”, afirma a manifestação.
Segundo o senador, a proximidade das eleições brasileiras pode dificultar negociações mais amplas ao criar incentivos políticos para transformar disputas comerciais em ganhos eleitorais. A suspensão temporária das medidas, segundo o texto, abriria espaço para negociações sem o impacto imediato do calendário político.
O documento também estabelece a continuidade das tratativas em caso de mudança de governo. Pela proposta, se a oposição vencer as eleições de 2026, o presidente eleito indicaria imediatamente um representante para dar sequência às negociações.
OUTROS ARGUMENTOS
Além do argumento político, Flávio sustenta que a própria legislação americana permite adiar a implementação de determinadas medidas por até 180 dias quando houver interesse econômico nacional e negociações relevantes em andamento ou prestes a começar.
O senador afirma que tarifas amplas poderiam trazer custos para a própria economia americana, atingindo consumidores e empresas dos Estados Unidos, além de afetar investidores e cadeias produtivas ligadas ao comércio bilateral.